Apresentação

O universo da Informação Médica é caracterizado por uma imensa quantidade de dados
que, para serem acessados, usualmente utiliza-se como ferramenta de busca as
técnicas estruturadas aprendidas em Semiologia Médica associadas a processos
intuitivos individuais do profissional, determinados por sua experiência e pelo conteúdo
de seu conhecimento.

Na Medicina contemporânea os métodos utilizados para aquisição e análise de dados clínicos ainda não são cientificamente tão bem desenvolvidos quanto as técnicas empregadas em pesquisa laboratorial e diagnóstica. Consequentemente, as decisões médicas frequentemente são suportadas por excelente evidência científica, mas as decisões intervencionistas não o são. Portanto, as atividades puramente clínicas da medicina contemporânea podem assemelhar-se mais à arte do que à ciência.
O desenvolvimento científico dessa arte oferece um rico objeto para pesquisa futura mas, provisoriamente, o leitor de qualquer compêndio de conhecimento clínico deve tratar com o "Estado da Arte" de sua forma existente no presente.
As doenças, em relação a conjuntos de pacientes, constituem grupos complexos de informação, podendo apresentar uma, algumas, todas ou nenhuma das manifestações clínicas esperadas. Portanto, uma doença irá apresentar subconjuntos de pacientes dentro de um conjunto maior com o mesmo diagnóstico, que apresentarão diferentes quadros clínicos, provavelmente com prognósticos e terapias diferentes.
As descrições clínicas de uma doença raramente englobam todas as possibilidades, incluindo apenas o que é mais comum. Isso significa que a tecnologia clínica permite diagnosticar e especificar com exatidão a localização bioquímica, fisiológica ou morfológica de uma lesão, mas o espectro de manifestações clínicas de uma patologia não possui a mesma especificidade e consistência.
A complexidade dos indivíduos humanos e suas doenças demandarão sempre muitos julgamentos baseados em arte que simplesmente não podem ser expressados em termos científicos, mas a disciplina científica é necessária para o melhor uso das modernas tecnologias para identificação, explicação, prevenção e tratamento dessas doenças.[Cecil - Textbook of Medicine. Beeson-McDermott. 1975 - 14ª edição]

O exposto não permite esquecer a complexidade da informação médica, e de todas as implicações que uma única afirmação pode representar, portanto é extremamente importante considerar que o advento das novas Tecnologias em Informação podem, e muito, auxiliar a prática da Medicina em seu todo.

O advento das ferramentas de Tecnologia da Informação (TI) trouxe à prática médica a oportunidade de otimizar as atividades de armazenamento e recuperação mais estruturada de dados clínicos. No entanto, o profissional médico, principalmente aquele que já possui alguns anos de experiência, geralmente não acredita que o uso desses instrumentos possam realmente melhorar o seu trabalho, ao contrário, podendo inclusive atrapalhar o raciocínio clínico incluindo a preocupação com atividades aparentemente pouco afinadas com a tarefa de salvar vidas, onde o imediatismo pode ser a diferença entre uma ação bem sucedida e um grave erro. Parece não haver muito espaço no dia a dia do Médico para uma convivência pacífica com a TI. Afinal, aprendemos na formação acadêmica que o paciente é o principal foco de nossas atividades, e aliviar seu sofrimento é a prioridade em relação a outras atividades dentro do cuidado à saúde, muitas vezes levando-nos a negligenciar a necessidade de realizar anotações completas e inteligíveis sobre nossas observações e procedimentos. Além disso, a idéia de manipulação externa sobre a atividade médica - responsabilidade intrínseca do profissional que a exerce - parece determinar grande parte das causas de rejeição às novas tecnologias. Afinal pouco se conhece sobre sua real eficiência e finalidade, além da pouca confiança na segurança de recursos tecnológicos.

Apesar de longo período de estudos e do amadurecimento progressivo dos métodos e
tecnologias para desenvolvimento do PEP, ainda observa-se uma prevalência muito
baixa de soluções implementadas de modo completo e efetivo.

Os manuscritos, muitas vezes incompletos e ilegíveis, ainda parecem mais seguros e imprescindíveis para a maioria dos médicos.

Quando se pensa em Bancos, que habitualmete manipulam informações cruciais, é difícil imaginar que exista algum atualmente que não utilize processos automatizados, rígidos e padronizados, e é difícil conceber a idéia de segurança sobre a manipulação financeira sem o uso da informática. Porém, na Saúde ainda não se raciocina desta forma, mesmo tendo a informação médica de um indivíduo, importância comparável à sua informação financeira.

Lembrando que o foco do profissional médico é o cuidado à saúde, é importante salientar que boa parte do subsídio para a continuidade desse cuidado à partir de um atendimento clínico em uma Instituição, se baseia na qualidade e quantidade de informação sobre saúde que é gerada sobre um paciente durante sua passagem, para que possa subsidiar necessidades futuras de outras instituições por onde esse paciente venha a receber atendimento. A idéia é que a informação global de saúde de um indivíduo possa ser recuperada a qualquer tempo de sua necessidade, respeitando preceitos de sigilo e segurança de informação.

No entanto, a informação médica é altamente complexa, e o desenvolvimento de sistemas voltados para a saúde devem obedecer a processos formais cuidadosos, onde não sejam perdidos de vista os requisitos que são inerentes ao domínio Saúde, incluindo participação de profissionais familiarizados com essa complexidade e também familiarizados com instrumentos de TI.

A implementação de Sistemas de Informação em Saúde - Aqui exemplificados pela tecnologia do Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) - demanda um preparo do ambiente institucional / organizacional que o receberá, além de um preparo específico dos profissionais médicos que irão com ele interagir, para que se garanta a obtenção plena de suas vantagens.

No ar desde 11/09/2002

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